Mundo de Vordel #14 – Ritual Profano, parte 1: À Procura de Rastros de Cultistas

Mundo de Vordel #14 – Ritual Profano, parte 1: À Procura de Rastros de Cultistas

No dia 24 de outubro de 2024 completou 6 anos que comecei a escrever um cenário homebrew para jogar D&D 5E com meus amigos. Tudo começou com a criação do mapa, onde me sentei no meu computador, abri o Inkarnate e comecei a criar com a visão do mundo concentrada na ponta mais ao sul de um continente que não fazia ideia de como seria, definindo três reinos que ainda não fazia ideia do que fazer. Um deles logo se tornou Convrad, um reino de anões, e foi lá que criei minhas primeiras histórias para esse mundo.

As coisas começaram a ganhar forma e profundidade. Em algum momento esse continente tomou a forma da cabeça de um dragão, com uma explicação bastante importante para o cenário que foi criada na minha cabeça. Depois, quando precisei de um nome, eu comecei a brincar com palavras na minha boca e dali saiu Drazenia, ainda sem um significado. Novamente, quando a necessidade de uma explicação surgiu, eu inventei algo que fazia sentido na minha cabeça. Já fazem 6 anos que continuo fazendo esse mesmo movimento e inventando cada vez mais história e pintando um mundo cada vez mais complexo.

Depois de todo esse tempo, muita coisa mudou. O mapa agora demonstra como é esse continente por completo (com muitos outros citados em minhas anotações), existem muitos mais reinos e eu já vivi algumas aventuras com meus amigos, e sempre tive a vontade de apresentar isso para outras pessoas além do meu ciclo de amizades. Hoje eu vim não só apresentar o Mundo de Vordel para vocês, meu público, mas também contar as aventuras que vivo junto dos meus amigos.


Antes de começar a contar a história da nossa última sessão, acho que é importante explicar algumas coisas para não deixar vocês perdidos. Como vocês podem ver ali em cima no título da publicação temos o número #14 o que pode fazer você se questionar “Não era para estar começando no #1?”. Na teoria sim, mas nós não começamos essa campanha no nosso último jogo. Eu já jogo essa campanha com meus amigos desde a metade de 2022, e não queria enganar vocês ou qualquer coisa do tipo e colocar que acabamos de começar ela, queria justamente criar um paralelo em cima da sessão atual que estamos com o que irei retratar para vocês através dessa e das postagens futuras continuando a contar nossas aventuras.

“E porquê você decidiu começar a contar essa história para a gente agora?”. Além do óbvio motivo de que quando começamos tudo isso daqui nem existia, tem um motivo mais interessante. Na nossa última sessão tivemos grandes mudanças na mesa, a primeira foi a introdução de quatro novos jogadores que entraram para completar um grupo de sete jogadores, que já estava desde o começo do ano planejando para a inclusão deles. O segundo motivo foi uma imensa mudança que mexeu com o status quo da nossa mesa, que foi a mudança do sistema do D&D 5E para o Tormenta 20 (devo abordar mais as motivações para isso em outra publicação), que levou a recriação das fichas daqueles que já jogavam e a criação de regras e conteúdos homebrew para adequar o sistema ao cenário (bem menos do que o que eu tinha que fazer quando era D&D).

Para facilitar a compreensão de vocês da nossa história, adotei algumas regras para a estrutura do texto. Sempre que um personagem jogar, NPC, inimigo, organização ou localização for citada no texto, seu nome será escrito em negrito. Quando eu transcrever a fala de algum jogador ou NPC durante a mesa, ele será escrito “entre aspas e em itálico”. No título da publicação vocês encontram o número da sessão, a aventura que eles estão jogando (criada por mim) e a parte que estão, com o nome dela como se fosse o nome de um episódio. Antes de começar a narrar a história do que aconteceu, sempre irá ocorrer uma recaptulação da última sessão, e no fim da publicação estarão algumas notas de apoio ao texto.

Com o tempo e com mais publicações das sessões do nosso jogo, vocês vão conhecer mais sobre os personagens e sobre os jogadores, mas no futuro pretendo fazer uma publicação para isso. Porém, aproveitando toda a questão de introdução de novos jogadores, acredito que tudo que for apresentado aqui vai fazer com que vocês não fiquem perdidos no que está acontecendo (assim espero). Pretendo também fazer algumas publicações paralelas contando detalhes de certas partes da nossa campanha ou do cenário, esperem por bastante conteúdo disso.

Sem mais enrolação, apresento oficialmente para vocês pela primeira vez O Mundo de Vordel, minha mais querida criação. Espero que gostem dos personagens e da história e aguardem ansiosos pelos próximos capítulos.

Drazenia foi forjada em duas guerras. Depois que o Mundo de Vordel foi criado e moldado pelas Entidades, dragões — os seres mais fortes criados pela energia divina do Caos e da Ordem — dominaram cada centímetro de terra, levando a uma soberania sob as asas de Bahamut e Tiamat que duraram 10.000 anos. Mas onde há caos e ordem, há conflito. O domínio dos dragões ruiu em uma guerra que durou 100 anos, um século perdido imerso em guerra tomado por fogo e sangue.

A última batalha foi travada pelos deuses dos dragões, o Dragão de Platina e a Rainha Tirana se enfrentaram vorazmente, enfeitando os céus com sua presença onipotente. Dessa disputa, nenhum dos dois saiu vivo. Bahamut, reunindo todo poder que possuía, agarrou Tiamat e chocou seus corpos contra o grande oceano de Vordel, um golpe poderoso repleto de poder divino buscando selar a Deusa dos Dragões do Caos, se sacrificando no processo. A essa altura, os dragões já não eram mais tantos quanto na era de sua soberania, e ainda menor foi a quantidade daqueles que presenciaram como se deu o fim da Guerra dos Dragões.

Valforme e Drazzer, dois dos dragões aliados de Bahamut na guerra, observaram o sacrifício de seu irmão e o que veio depois. Do mar aberto, o continente emergiu deixando a marca do Dragão de Platina no mundo, em meio a tempestades, magma e água. Assim nasceu o que viria a ser chamado de Drazenia, A Terra dos Dragões. Desde de sua aparição no mundo, suas terras estão repletas de perigos que atormentam inocentes, desafiam os poderosos, corrompem os fracos e trazem devastação por essas terras.

Tudo se torna ainda mais complexo com a aproximação do inverno, que parece trazer à tona toda a escuridão dormente de forma ainda mais intensa, remetendo a segunda guerra que o povo dessas terras enfrentou. A Guerra Contra o Abismo ocorreu a mais de 300 anos, e teve início em um inverno qualquer, quando os reinos tiveram que combater uma corrupção que crescia em seus âmagos sem entender muito bem o que estava acontecendo.

Por sorte, existem aqueles que se colocam como bastiões contra a ruína. Aventureiros, ordens religiosas, mercenários, todos batalham dia após dia para que o perigo não entre dentro de suas cidades e residências, e tome por força o que é importante para eles. A escuridão do Abismo adormeceu, fazendo permanecer pouco do mal que atingiu o continente, mas sempre se fazendo presente para lembra-los que essa terra não está livre de sua corrupção.

Nós estamos em Sidast Sterkur, a cidade do reino de Convrad — conhecido também como o reino dos anões —, que fica mais ao leste de seu território, fazendo fronteira com Nova Terra. O inverno começou faz três dias, fazendo com que o clima ainda esteja no típico frio do outono, mas caminhando para uma maior intensidade. Na última semana, quatro novas figuras chegaram na cidade. Andurion, Conor, Coralina e Lumi se uniram como um grupo para cumprir o pedido de um membro da Armada da Noite, chamado Norvar, que nos últimos dias passou por situações bastante complicadas e pediu que eles recuperassem seus pertences roubados por uma alcateia de gnolls. Essa tarefa era apenas o começo de uma relação maior de trabalho, que envolvia o resgate de um membro capturado dessa ordem, porém ele estava no aguardo do retorno de um outro grupo de aventureiros para se unirem a missão.

Enquanto isso acontecia, um grupo de aventureiros sem nome derrubou a ramificação de uma organização de assassinos conhecida como Olho Escarlate, que estava buscando se expandir para além de Nova Terra, escolhendo o reino dos anões como seu novo local para cumprir seus propósitos nefastos. Após serem bem-sucedidos em derrotar o líder da ramificação, eles terminaram de explorar o forte abandonado no qual o grupo utilizava como sede e se direcionaram para retornar a Sidast Sterkur.

A Casa de Torden é uma das estalagens/tavernas mais conhecidas da cidade, atraindo todos os anões a presenciarem a magnífica estátua do deus Torden, O Pai da Tempestade, vomitar a melhor cerveja do continente. Diferente da maioria dos devotos, a visão dessa estátua sempre despertou um desconforto em Andurion, mas cerveja nunca é demais para um anão, ainda mais quando dividida com companheiros que acabou de conhecer. Ele retorna com mais quatro canecas para a mesa onde está o restante do grupo, seguindo a risca as palavras ditas por Norvar. “Descansem, bebam e comam em nome do seu sucesso. Logo os demais aventureiros chegam e iremos partir em jornada.”

Enquanto conversavam despretensiosamente, seis novas figuras adentraram a taverna e chamaram a atenção do grupo. Eram distintos entre si, dois humanos estranhos e um pequenino em vestes negras, uma vaer1 carregando um frondoso arco nas costas, um ser dracônico em vestes monásticas e um companheiro anão. O grupo observou eles se sentarem e os três primeiros logo foram interceptados por um noviço da mesma ordem de Norvar, a Armada da Noite. O maior entre eles, com físico de guerreiro e olhar intenso, pareceu mediar a conversa e direcionou seu olhar para onde o noviço apontava, observando os quatro companheiros que tomavam canecas de cerveja e conversavam.

O guerreiro se aproximou da mesa e assim que chegou levantou sua mão em forma de saudação. “Prazer em conhecê-los. Fui avisado de que iremos trabalhar juntos”, dois aliados deste o acompanharam até ali. Foi aí que eles entenderam que as figuras distintas eram aqueles citados por Norvar, o tal grupo de aventureiros que a algumas semanas tinham tentado contatar o membro da Armada que foi capturado, mas que na época estava em missão. Mais cadeiras foram trazidas e todos se sentaram a mesa para introduções, começando pelos recém chegados.

O guerreiro foi o primeiro a falar, e assim que se sentou colocou a espada montante que carrega em suas costas para descansar ao seu lado, não como ameaça e sim alívio. “Meu nome é Erebos2. Sou integrante da Armada da Noite e guerreiro deste grupo sem nome”, agora que estava perto era possível perceber suas orelhas levemente pontudas — comum entre meio-elfos —, seu olhar intenso provido pela íris cor de sangue vivo, porte físico poderoso demonstrando sua força de guerreiro e pele ambar, comum daqueles vindo do oeste do continente. Assim como outros membros dessa ordem, ele veste roupas negras, com uma meia-armadura a cobrindo e uma longa capa de pele de lobo tingida de vermelho para completar o visual de predador.

Ao seu lado, Azzakh, Palmas Douradas3, o ser dracônico com vestes monásticas que observaram de longe mais cedo. Ele explicou que, na verdade, ele é um dracodine, um descendente dos dragões tartaruga comandantes do grande oceano e que ele, assim como Erebos, faz parte de uma ordem. Ele é um monge membro da Ordem do Guardião Dourado, conhecidos pelo seu trabalho em nome da paz e misericórdia, seguindo as palavras de Drazzer, O Guardião Dourado, fundador da ordem. Mesmo sendo um pouco menor que seu companheiro, ele conseguia ter um físico ainda mais robusto, que era complementado por sua cor de rocha, face bruta e robes de cor dourada.

Por fim, cabisbaixo e aparentemente deprimido estava Aladim Mubarak Axefárida4, um simples anão, com vestes simples e uma vida simples. Tudo isso chamou muito a atenção de todos que já estavam a mesa, principalmente Andurion e Lumi por também serem anões. O nome de Aladim não possuía nada que remetesse a cultura anã e seu porte não era nada parecido com o de um aventureiro, o que levantou muitas perguntas que não foram ditas naquele momento.

Junto deles, eles disseram, estava Bryana, Timothy Dedoleve e Yulian — respectivamente a humana e o pequenino que também possuem vestes da Armada da Noite e a vaer com o arco nas costas e vestes de couro —, que os acompanharam por grande parte da jornada (no caso da Bryana) e que os auxíliaram na sua última aventura, no qual enfrentaram uma ordem criminosa. Com os recém chegados apresentados, estava na hora de serem apresentados os quatro que já estavam na Casa de Torden.

De forma veloz e graciosa, Coralina5 começou a contar um pouco sobre si enquanto dedilhava sua lira. Ela se destaca entre os quatro pela sua aparência esguia e delicada, com vestes bufantes e típicas de lugares mais quentes, ocultando seus cabelos com um capuz feito de panos e um véu que traz um ar misterioso ao seu olhar. Curiosamente, enquanto canta sobre como chegara até ali, todos escutam pequenos sibilos que se harmonizam com sua doce voz. Segundo a barda, ela chegou ao reino dos anões faz pouco tempo, e depois de tentar se infiltrar em uma festa nobre a procura de boa comida, acabou sendo presa — algo que Andurion como membro da cavalaria de Convrad fez questão de reforçar — e posteriormente liberta para se unir aos seus companheiros em uma missão.

Segurando um grimório com uma mão e uma caneca de cerveja com a outra, Conor Blackwood6 se apresentou. Assim como Cora, ele acabou sendo preso por desacato, onde conheceu a barda e que também foi liberto de sua pena a fim de cumprir a missão que fizeram juntos como grupo. Seu foco é nos estudos da magia arcana, e decidiu se afastar de sua família e riqueza para se concentrar na descoberta de textos e pergaminhos mágicos. Dentre as opções de reinos e cidades diferentes próximas de sua cidade natal em Nova Terra, ele decidiu descer até Sidast Sterkur que parecia uma opção interessante.

Andurion7 e Lumi8 se apresentaram de forma quase simultânea. Ambos são anões, companheiros de viagem, aventureiros protetores da fronteira e membros dos Clérigos de Bronze, a ordem religiosa mais respeitada de Convrad cujo seus membros se devotam as divindades anãs. Lumi que até agora tinha apenas observado, tomou a frente para se introduzir. Ela é uma devota da deusa Ymir, A Montanha Viva, membra do clã Raposa-da-Montanha, que são conhecidos pela sua sabedoria e cuidado com os inocentes. Ela é afeiçoada pela arte da culinária e com uma característica que ela compartilha com bastante orgulho. “Eu consigo sentir o cheio de neve dias antes de começar a nevar!”

Andurion por sua vez, além de clérigo devoto de Torden, é um cavaleiro membro dos Guardiões do Martelo, uma ordem de cavaleiros e guerreiros que juntos formam a maior força militar de Convrad, responsáveis pela proteção das fronteiras e das cidades. Toda vez que julgava falar algo de importância e seriedade, ele fazia questão de colocar a sua mão na cabeça de seu martelo de guerra, quase como um vício. Mesmo com a pouca interação que tiveram, Erebos e Aladim notaram que ele também se trata de um indivíduo bastante ríspido, bruto e centrado, como todo bom anão.


Após a longa apresentação de cada um e mais algumas conversas paralelas sobre a vida deles como aventureiros, eles finalmente se concentraram no assunto de interesse de todos, que era a missão passada por Norvar. Naquele momento que o noviço da Armada da Noite veio falar com o grupo que havia acabado de chegar na cidade, eles foram informados oficialmente sobre o desaparecimento de Vorsisax, um bruxo draconato membro da ordem que fora capturado durante uma missão que fazia junto de Norvar e outros membros da Armada. Ele não os informou muito mais do que isso, dizendo que deveriam ir até os Salões do Eirhamar9, “… junto do grupo de aventureiros daquela mesa”, ele acrescentou.

Andurion e Cora prosseguiram falando sobre a relação deles com o Norvar, dizendo que haviam se unido para recuperar os pertences dele que foram roubados por gnolls quando ele retornava para cidade. “Inclusive encontramos os restos mortais de um companheiro anão quando estávamos investigando a localização dos gnolls.”, disse o cavaleiro. Eles encontraram a líder da alcateia junto de seu bando, fazendo com que ela se rendesse e devolvesse os pertences, junto de outros tesouros. Por fim, perguntaram qual seria a relação dos aventureiros que chegaram com o caso.

O monge dracodine tomou a frente. “Há alguns meses eu e um companheiro de viagem meu e que também fez parte desse grupo, Oxes, encontramos em uma caverna de kobolds um presente direcionado a esse Vorsisax, porém quando chegamos em Sidast Sterkur ele estava em uma missão.”, além disso, Yulian quando se uniu ao grupo na última missão havia compartilhado com eles a informação de seu desaparecimento, o que levou eles a retornarem a cidade.

Sem muito mais sobre o que conversar, eles decidiram por fim partir para os Salões do Eirhamar, para falar diretamente com Novar e se informar mais sobre o que havia acontecido.


Enquanto saia, Aladim ainda parecia abalado por alguma coisa que era desconhecido para Andurion, então ele decidiu ir até ele para saber o que o aflingia. “Na última aventura que tivemos, no qual derrotamos a organização criminosa que falamos mais cedo, eu perdi minha companheira…”, foi o máximo que o cavaleiro anão conseguiu extrair dele. Ele prestou suas condolências e se afastou, continuando a caminhar com o grupo em direção aos salões.


Erebos foi chamado por Bryana para conversarem sobre os próximos passos. “Parece que esse grupo está ficando muito grande”, disse a clériga ao guerreiro quando ele se aproximou. “Acho que o melhor a se fazer agora é nos separarmos. Irei com Timothy e Yulian para continuar investigando o Olho Escarlate e ajudar o pequeno mago a decifrar o diário que encontramos no forte abandonado.”, apesar de focada no objetivo, ela dizia essas palavras com pesar.

A clériga esteve com o grupo desde o começo de sua aventura, até mesmo antes disso. Ela acompanhou Erebos até Sidast Sterkur quando ambos foram designados pela Armada da Noite a virem ao reino dos anões após o Conselho do Inverno, onde muitos outros integrantes da ordem foram enviados para diferentes partes do continente. Ela olhou para o grupo e se despediu calorosamente de seu companheiro de espada, de Azzakh e de Aladim, dizendo que poderiam contar com ela para o que precisarem. “Vocês sabem onde me encontrar. Cuidem bem do lobo.”


O grupo levou os novos aventureiros para o lado de fora, para que pudessem entrar na carroça de sua posse. Esperando do lado de fora, estava um lobo de olhar bastante inocente e pelo negro rajado por uma cor acinzentada. Erebos e Aladim o apresentaram para os novos conhecidos, que ficaram espantados com seu tamanho apesar do jeito de criança. “Ele ainda vai crescer muito…”, completou Aladim.

Nesse momento, Azzakh fez questão de apresentar a eles os cavalos que cuida com tanto carinho. Thánatos e Tanoa são os dois cavalos responsáveis por levar a carroça do grupo. Com todos devidamente familiarizados com os animais dos aventureiros, cada um se colocou em um lugar de conforto, conforme Erebos conduzia a carroça em direção aos Salões do Eirhamar.

O grupo de aventureiros, agora com todos reunidos, chegam aos Salões do Eirhamar de Sidast Sterkur. Todos já estavam acostumados com a burocracia anã quanto ao trabalho que faziam, e assim como em todas as vezes, se direcionaram a recepção e depois foram encaminhados para uma sala de reunião onde se encontrava Norvar. Ao abrir as portas da sala, eles se deparam com a figura em robes negros e de aparência peculiar. Metade do rosto vaer da lua negra, e a outra metade humana, ele parecia ser a fusão de duas metades, de dois mundos completamente diferentes que se uniram.

Sob os olhares daqueles que ainda não tinham visto sua aparência, ele deu boas-vindas aos recém chegados. “Prazer aventureiros! Eu sou Norvar.”, disse se direcionando a Aladim, Azzakh e Erebos. Ele fez questão de apertar a mão de cada um e quando todos pareciam confortáveis ele começou a explicar o motivo da reunião de todos ali.

“Os seus novos companheiros que encontraram na taverna já sabem um pouco sobre o porquê os chamo aqui, afinal fizeram um serviço para mim nos últimos dias. Semanas atrás eu, Vorsisax e outros membros da Armada da Noite saimos em uma missão para o norte deste reino, acima das montanhas, a procura de artefatos nas ruínas de uma masmorra anã. Ao chegarmos lá, tudo ocorreu dentro do padrão, exploramos a masmorra até que fomos surpreendidos por cultistas que assassinaram alguns de meus aliados e capturaram o draconato. Consegui escapar junto de outro membro por muito pouco.”

“Um pouco antes de retornar a cidade, como seus amigos sabem, eu fui atacado por gnolls que roubaram o restante dos nossos pertences que carregavamos conosco após a emboscada na masmorra. Quanto a isso não se preocupem, pois eles já me auxíliaram com esse problema. Vocês possuem alguma pergunta ou questão antes de eu prosseguir?”, falou observando a sala.

Todos absorviam as informações, enquanto Azzakh pensava em diferentes formas de perguntar sobre sua aparência por curiosidade. Andurion foi o primeiro a falar, perguntando se eles possuíam algum tipo de vestimenta específica ou carregavam algum símbolo. Quanto a vestimenta, o meio-elfo disse que pareciam comuns, mas não pode afirmar com certeza se carregavam algum tipo de símbolo e como ele era. Conor levantou a mão e prosseguiu com sua pergunta. “Como você pode afirmar que eles eram cultistas e não simples mercenários, sequestradores ou ladrões?”

Norvar ajustou a postura e respondeu o mago: “Pela forma como agiam e pelas suas habilidades. Eles possuiam acesso a conhecimento oculto, habilidades concedidas por patronos sobrenaturais. Outro ponto que confirma minha suspeita é o fato de eles terem se coordenado e capturado o único de nosso grupo que possuía acesso a tal conhecimento, por ser um bruxo. O que faz dele capaz de acessar fontes mais fortes do poder que possuíem.”

Aladim observou a semelhança da descrição dita por ele com sua situação, onde era capaz de obter habilidades estranhas sem saber exatamente como elas funcionavam. Até agora pensava que estavam ligadas a sua companheira, mas após o seu desaparecimento e risadas malignas no fundo de sua mente, ele não sabia mais o que de fato era. “Então bruxos e pessoas que possuem acesso a esse conhecimento oculto são seres malignos?”, disse preocupado enquanto uma risada crescia dentro de sua mente e trazia a ele calafrios.

“Não necessariamente. Como pode ver, Vorsisax é um aliado da Armada da Noite e nunca utilizou seus poderes para qualquer propósito além de auxíliar seus aliados.”, o que trouxe um pouco de paz aos pensamentos de Aladim.

Após alguns segundos de silêncio, ele disse: “Acredito que vocês não tem mais perguntas por enquanto. Vamos falar sobre meu plano. Eu pretendo, junto de vocês, retornar até as ruínas da masmorra anã, para investigarmos qualquer pista deixada pelos cultisas na cena do combate, para, assim que soubermos onde está o bruxo, irmos até seu resgate. Quando cheguei em Sidast Sterkur eu designei alguns membros da Armada para irem em busca de rastros pela região, para termos uma garantia de que iremos achar algo.”

“A recompensa por esse trabalho, que já foi discutida parcialmente com eles, …”, falou enquanto direcionava seu olhar a Andurion, Conor, Coralina e Lumi, “… será o soldo de 150 peças de prata para o início do trabalho, os quatro que me auxíliaram irão poder ficar com os tesouros e itens encontrados na masmorra e o restante de vocês irá receber uma quantia proporcional ao sucesso da missão de resgate. Mais alguma dúvida?”

Sua pergunta foi respondida com silêncio e expressões de certeza, apesar de Azzakh estar segurando com firmeza sua curiosidade sobre sua aparência. “Ótimo! Iremos partir amanhã cedo.”, o que levou a eles organizarem os preparativos para a jornada. Norvar foi acompanhado por Aladim e Lumi para conseguirem os suprimentos de ração, que seria obtido parcialmente pelo meio-elfo e o restante foi dividido entre todos. Os demais buscaram cada um seu rumo, separados ou em grupo.


Andurion Escudo-do-Trovão seguiu seu caminho até a sede dos Guardiões do Martelo, buscando um santuário de sua divindade para levar suas preces até seus domínios. Logo no centro da fortificação no qual ficam sitiados os guardas e cavaleiros da cidade, emponente e jovem estava uma estátua de Torden, uma no qual o anão sempre visitava ao passar por Sidast Sterkur. Se ajoelhou a frente da figura em respeito, segurando firme seu escudo e apoiando a mão direita em seu martelo.

Entre seus pedidos comuns por orientar a força de sua bravura, Andurion buscou sentimentos que indicassem se a direção pelo qual percorria era de agrado do Pai da Tempestade. Sua mente se fez silêncio, como se o mundo exterior desaparecesse de imediato, escutando apenas o som de uma trovoada distante, o que foi confirmação suficiente para ele.


Enquanto isso, Conor e Erebos saíram para buscar mais informações sobre o tal culto e o local ao qual a captura de Vorsisax ocorrera. Seguindo a recomendação do mago, eles foram até os arquivos dos Salões do Eirhamar, com acesso concedido pelo Norvar em conversa com o Eirhamar de Sidast Sterkur, Duerard Guerreiro-de-Pedra. Ambos começaram a estudar os códex e papiros que encontravam, buscando respostas para suas perguntas.

Primeiro, vieram respostas sobre as ruínas. Ela era conhecida a tempos atrás como Masmorra de Vistra, e fora perdida pelos anões durante a época da Guerra Contra o Abismo. Segundo um relato que encontrou, onde era estudada a possibilidade de retomada dos trabalhos em seus interiores, “A masmorra pode guardar armadilhas perigosas e persistentes as mazelas do tempo, assim como todo tipo de morto-vivo ou criatura que se aproveitou da ausência do povo anão para utiliza-la como covil.”

Quanto a questão dos cultistas, Conor não encontrou respostas nos arquivos ali presentes, porém se lembrou de histórias contadas a ele em tempos passados. A muitos anos um culto agiu na região próxima de sua cidade de origem, a cidade de Ponta Verde em Nova Terra. Dentre suas atividades estava principalmente a de sequestro e sacrifício de seres não-humanos, se aproveitando do preconceito presente naquela região. “Pelo que me lembro”, disse a Erebos, “grande parte de suas atividades se deu próxima a Floresta do Orvalho Refulgente e as cidades de — minha terra natal — Ponta Verde, Central e Calêndula.”

Satisfeitos com o que tinham obtido, eles foram se encontrar com os demais.


Mais uma vez estavam todos na sala designada a eles nos Salões do Eirhamar, cada um retornando de sua atividade ou repouso, no caso de Azzakh. Coralina foi a última a se unir ao grupo e parecia extremamente frustrada, e quando perguntada respondeu “O povo dessa cidade não sabe apreciar o doce som produzido por minha lira, não me deram um tostão!”

Nesse momento, estava o grupo discutindo as diversas formas possíveis que eles poderiam carregar toda aquela comida, quando Aladim tomou a frente de todos e começou a explicar que possuía a capacidade de guardar a parte que seria utilizada na jornada de volta a cidade. “Eu possuo um tipo de magia, ou habilidade não sei muito bem dizer, onde consigo transformar objetos que cabem na palma da minha mão em areia e guardar dentro da minha aliança.”

Ele então começou a desmonstrar a todos como fazia, segurando um objeto e pronunciando palavras em uma língua estranha, quando todos observaram o item se transformar em areia e ser consumido por sua aliança. “Viram! Posso fazer isso com metade do que temos de suprimento.”, ao mesmo tempo que Lumi disse, “Você acabou de se tornar a pessoa mais importante desse grupo. Se você morrer, iremos perder toda essa comida.”

Ao mesmo tempo, Andurion cochichou com Conor o seguinte “Desconfio muito deste anão. Ele não tem nome e nem jeito de anão. Não digo que é má pessoa, mas é com certeza um ser muito estranho. Vamos ficar de olho nele.”. O mago fez sim com um gesto da sua cabeça e continou, “Era o que pretendia falar com você. Estive observando ele pelo tempo que pude, e ele parece estar em algum tipo de conflito, não sei se com ele mesmo ou outra coisa.”

O fim do dia foi tomado de rituais para guardar o que podiam de comida na aliança de Aladim, para depois descansarem em seus respectivos quartos garantidos por Novar na Casa de Torden.


O Sol Azul se levantou alto no céu, acordando todos para um novo dia, no qual vão dar início a jornada deles até as ruínas da masmorra anã que os aguarda ao norte. O grupo se reuniu no salão comunal da estalagem e tiveram um café da manhã reforçado para seguirem viagem com tranquilidade, afinal, isso é só o começo de algo maior.

Norvar e o grupo de aventureiros rumaram ao norte, com sua carroça puxada por seus cavalos, conduzidos mais uma vez por Erebos. A região por qual faziam sua travessia é bastante perigosa, já que não possuía qualquer caminho ou estratada para seguirem, apenas as marcações geográficas o acompanhavam.

A oeste estava Öldungafjöll, conhecida na linguagem comum como A Montanha dos Anciões, um marco importante da história anã de onde é traçada a origem de seu povo, e a leste ficava localizada a Floresta do Orvalho Refulgente, que junto do rio que a cruza demarca a separação entre o reino dos anões e o reino dos humanos. É no espaço entre elas que acontecia a jornada do grupo.

Dali, pouca coisa relevante aconteceu em um período de três dias — o que era raro para uma região tão inóspita, mas parecia que nesta jornada a sorte estava do lado do grupo —, os aventureiros iam buscando passatempos diversos para se entreterem durante a jornada. Porém, algumas coisas vale a pena serem ditas.


Logo no começo da jornada, Erebos apresentou para Andurion e Lumi dois itens curiosos que encontraram em sua última aventura, depositado em um baú de madeira e adornos de prata, com uma tranca valorizada por um pequeno rubi, aberto por ele e Aladim na manhã do dia que chegaram na cidade. Dentro estava duas pedras de rio, cada uma gravada com um belo desenho de um anão falante. Juntas, formam a imagem de uma conversa.

Os anões de Convrad são conhecidos por serem um tanto quanto conservadores sobre o uso de magia e de itens mágicos. Eles confiam mais no poder do ofício e de uma boa forja, utilizando raramente em armas e armaduras encantos poderosos e de tempos antigos, que para eles é visto mais como tradição do que prática arcana.

Os clérigos então começaram a explicar a ele que se tratava de pedras mensageiras, um dos poucos artefatos mágicos vistos com bons olhos pelos anões daquele reino. Segundo eles, são comumente utilizadas por membros de alto escalão dos Guardiões do Martelo e outras forças armadas do reino, para comunicar alguma mensagem entre si. Basta empunhar a pedra e que outra pessoa faça o mesmo que é possível transmitir uma curta mensagem uma vez por dia, demonstrando seu funcionamento para todos.

Apesar de simples, possui uma grande utilidade pelo que julgaram.


Toda noite, seguindo a prática e boas condutas de se dormir ao relanto, duas pessoas do grupo eram eleitas para fazer a guarda do acampamento. Na noite do terceiro dia, esse trabalho fora feito por Aladim e Erebos. Eles aproveitaram a oportunidade para chamar Azzakh e discutir uma questão que atormentava Aladim desde que descobriram sobre o caso de Vorsisax, e que estava a dias querendo conversar com os amigos.

“Vocês já devem ter reparado que eu venho de uma terra muito longe daqui, onde a cultura e as criaturas são completamente diferentes. O continente é dominado por humanos e pelo preconceito de um império totalitarista. Em certo momento, eu fui capturado e entregue a Zahara, minha esposa. Por lá, ela é conhecida como Zahara Buraq Aldhabab Axefárida, A Dao Brilhante de Ouro Fulgente, uma das poucas criaturas mágicas que vive naquelas terras.”

“Ela é uma gênia, um ser de puro poder, e dominava uma pequena região do deserto e possuía uma riqueza incomensurável. Com o tempo, acabamos nos aproximando e as circunstâncias levaram ao nosso casamento. Porém, durante os votos, um ser místico e terrível apareceu e interferiu no rito conduzido por ela, prendendo-a dentro da aliança que carrego e conectando nossa existência de forma profunda e reduzindo ela a aparência de um pequeno espírito fantástico.”

“Eu não podia mais viver naquele lugar, e decidimos fugir. Passamos por muita coisa, e durante esse tempo ela foi me ensinando a utilizar as habilidades mágicas que possuo e uso em nossas aventuras, me ajudando a sobreviver. Isso aprofundou meu amor por ela, mesmo com seu jeito um pouco egoísta de ser. Conforme nos aproximavamos desta forma, sentia o poder crescer dentro de mim, e sempre conectei isso a ela.”

“Porém depois do que o Norvar explicou sobre conhecimentos ocultos, bruxos e patronos sobrenaturais, algo bem parecido com o que possuo, comecei a me questionar se isso é bom. Desde a noite que Zahara desapareceu repentinamente em nossa última aventura, venho sendo atormentado por uma voz maléfica que zomba de mim e que escutei no exato momento que isso aconteceu. Acredito que seja aquele ser que amaldiçoou a mim e a minha esposa, e que pensava que não iria mais atormentar a nós dois.”

“A sua risada e desdém me trazem náuseas, dores de cabeça, e pareço carregar ela agora como um martírio de meu poder. Tenho medo do que posso vir a me tornar, do poder me consumir e de fazer mal a vocês com isso. Hoje tenho vocês como minha família e não conseguiria viver com a lembrança de ter os feito mal. Meu poder já os machucou antes e tenho receio de os machucar novamente, por isso, se eu me tornar algo que os faça mal, confio a vocês a tarefa de me matar. Sem minha esposa o que vem me ajudando a continuar caminhando é minha grande lealdade a vocês que tanto me ajudaram e isso nunca poderá mudar.”

Erebos tomou essas palavras para si com extrema seriedade, mas também com uma certa leveza, afinal, pensou que a situação de Aladim de certa forma era muito semelhante ao seu caso. Ele teme sua capacidade e ferocidade e a utiliza com muito cuidado, trazendo ela em situações de muita necessidade, como fez em uma oportunidade que teve. O guerreiro explicou isso ao companheiro para que ele se tranquilizasse de que não chegariam a algo tão drástico — pensava até que isso poderia acontecer antes com ele.

Por fim, deram continuidade a vigilha, até que os três se encaminharam para dormir pelo resto da noite.


O quarto dia começava como qualquer outro, até que Norvar os notificou sobre uma questão. “Acredito que estamos próximos de uma cabana de um anão lenhador pelo qual passámos na jornada feita por mim, Vorsisax e os outros membros da Armada da Noite. Graças a lábia do draconato conseguimos abrigo por uma noite. Acho que pode ser interessante passarmos por lá também, para obter mais informações e, se nada melhor sair disso, descansarmos embaixo de um teto nesta noite.”, o grupo discutiu brevemente sobre essa possibilidade, até que decidiram por fim em seguir a ideia do meio-elfo.

Nesse trecho da jornada deles, eles estavam cruzando uma região bastante próxima aos limites da floresta. Eles chegaram na cabana no início da tarde, observando a coluna de fumaça formada por sua chaminé. Sua estrutura é simples, mas bem trabalhada, feita de uma madeira que provavelmente saiu da própria floresta ao qual habita.

Ao ouvir barulho de carroça, o seu morador cruzou a entrada da residência e abriu a porta para saudar os aventureiros, identificando um rosto conhecido entre eles. Ele se apresentou ao grupo, “Meu nome é Beloril Machado-Firme, o que gostariam de mim, bons aventureiros?”

Uma conversa deu início conforme adentravam a pequena cabana, porém Conor e Erebos ficaram um tempo a mais do lado de fora. Por simples curiosidade, o mago começou a investigar as redondezas da casa, não demorando a encontrar uma trilha deixada pelo que parecia ser um lobo. Conversando com o guerreiro, decidiram por entrar na casa para posteriormente investigá-la com o resto do grupo. Deixaram a carroça aos cuidados de Sin, o lobo do grupo e que já estava acostumado ao seu interior.

Quando as surpresas já pareciam suficientes, ele notou um pequeno detalhe, o machado parecia estar em desuso a tempos.


Enquanto acontecia a investigação de Conor, Norvar apresentou o grupo de aventureiros a Beloril, que buscou com entusiasmo canecas para tomarem uma boa cerveja juntos. Tanto Aladim quanto Lumi observaram a casa com atenção, encontrando próximo a lareira lenha envelhecida, indicando que o estoque do lenhador já estava antigo.

Andurion começou questionando se tem acontecido coisas estranhas na região, “…algo notável“, disse ele. “Bom, nas últimas semanas, com a chegada do inverno, a floresta tem se tornado cada vez mais obscura. Ouvi rumores de monstros e mortos-vivos no seu interior.”, Conor entrou escutando o final da conversa, suspeitando dos motivos de um lenhador não trabalhar a dias, focando sua visão na lenha e notando o que Aladim e Lumi viram ao entrar na casa. “Parece que a lenha precisa ser trocada.”, disse o mago de forma mais clara possível e olhando para o cavaleiro.

Andurion, devido a sua rigidez, segue a risca os dogmas de sua cultura, e não existe coisa maior para qualquer anão do que seu ofício. Ele tomou essas palavras como se fosse direcionada ao seu próprio trabalho, o que lhe trouxe uma certa cólera, decidindo por falar com ele para que se explicasse. “Como pode um anão fazer pouco de seu ofício? Devia se envergonhar de estar deixando de lado algo tão vital para nosso povo.”, disse embravecido.

O lenhador começou a demonstrar um certo nervosismo diante das palavras do cavaleiro, mas não deixou barato e respondeu com força seu questionamento. “Como pode ver não estou dentro de muradas anãs justamente por discordar de certas coisas de nossa cultura. Você está na minha casa e os recebi de bom grato, pois trate de me respeitar.”, ele segurou firme uma das canecas e começou a retira-las, uma forma indireta de dizer que não eram mais bem-vindos ali.


Mais uma vez Conor estava do lado de fora da cabana, saindo agora incentivado pela discussão e o clima pesado que se ia construindo. Dessa vez no entanto, ele conjurou uma de suas magias arcanas. Conor colocou uma folha negra embaixo de sua língua e após dizer algumas palavras mágicas, seus olhos foram tomados por chamas escarlate que fazia com que fosse capaz de enxergar a aura de coisas mágicas. Rondando a casa mais uma vez, notou através da janela do quarto do lenhador que ele possuía um baú com uma aura estranha, típica de magias ligadas a escola de transmutação — porém foi pego verdadeiramente de surpresa ao observar o interior da sala principal.

Aladim estava próximo de Beloril, mesmo sendo completamente diferentes, ambos compartilhavam uma característica, cada um era engolfado por aura de ilusão. A aura de seu companheiro era forte, demonstrando uma presença arcana poderosa em seu disfarce — consquência de alguma magia poderosa —, já a do lenhador era menos poderosa, indicando algo mais primordial ou natural, ele não conseguia identificar ao certo.

A primeira coisa que fez ao identificar isso foi chamar Andurion para compartilhar com ele seu conhecimento. “O anão não é quem ele é”, e de forma direta o clérigo caminhou em linha reta com seu martelo de forma ameaçadora, entoando palavras contra a veracidade de quêm o anão realmente é. Onde antes tinha nervosísmo, surgiu um sorriso sádico, e sua forma se desfez revelando a verdade, ele era humano afinal de contas.

Percebendo sua intenção assassina, Azzakh partiu em disparada e agarrou o indivíduo por trás, seguido por Aladim e Conor que, com seus rasciocínios rápidos, tentaram encanta-lo para descobrir mais sobre o que estava acontecendo. Porém, ele é mais forte do que aparentava, conseguindo resistir as magias conjuradas contra ele. Foi então que o martelo de Andurion se encontrou com a carne do inimigo, que cuspiu palavras ameaçadoras contra ele.

Coralina durante todo o momento que estava na casa do lenhador apenas observava com calma o desenrolar das coisas, puxando agora sua lira e sua rapieira, Presa-ardente, começando com prontidão uma balada inspiradora e energética para motivar seus aliados ao combate e revelando as cobras de seu cabelo, que lamberam e morderam sua lâmina a tornando venenosa e ameaçadora. Foi a primeira vez que muitos ali descobriram sua natureza.

O falso lenhador fez de tudo que podia para se libertar. Quebrou a postura de Azzakh com sua força sobrenatural. Ventos gélidos sopraram sob ele, encarando com raiva a clériga que segurava o símbolo da deusa Ymir. Ele estava encurralado, de todos os lados vinha golpes poderosos, enquanto ele demonstrava ferocidade de besta aos seus inimigos, indicando uma natureza sobrenatural a sua existência.

Erebos estava com saudade de um bom combate, e desferiu um golpe vindo de cima, o errando por pouco e aumentando a adrenalina que percorria por suas veias. Mais uma vez o monge dracodine o agarrou por trás, para que seus aliados fossem capaz de acerta-lo com mais facilidade. Todos avançaram de forma fervorosa contra ele, com o objetivo de debilitá-lo o máximo possível até que estivesse disposto a responder algumas perguntas.

Mais uma vez foi acertado pelo martelo do cavaleiro, ao mesmo tempo que deslizou sob a lâmina da rapieira de Cora em um golpe profundo, que atingiu um ponto vital e o feriu gravemente. Enquanto o combate acontecia, Norvar reunia sua força arcana, pretendendo lançar magias poderosas contra aquele que o enganou. Lanças místicas poderosas saíram de suas mãos, acertando-o em cheio, guiadas pela magia a atingi-lo com precisão.

Golpes e mais golpes ele recebeu, completamente em desvantagem e desorientado contra os aventureiros. Mais uma vez o meio-elfo foi a frente, agora segurando a cabeça dele e entoando cânticos desconhecidos para todos, preenchendo o olhos de ambos com uma energia púrpura e perfurando de forma mística o crânio dele com o seu dedão. Aquele que antes tinha dito ser Beloril, estava agora pasmo a frente de todos tomado pela magia de Norvar.

“Ele não é mais uma ameaça!”, esbravejou o meio-elfo. “Assim que largar sua cabeça, ele irá morrer, mas antes disso teremos a oportunidade de questioná-lo sobre a verdade do que aconteceu.”


Durante alguns minutos todos discutiram sobre o que iriam questioná-lo, decidindo concentrar suas perguntas em relação ao culto que estava agindo na região e que, quase de certeza, ele fazia parte. Norvar conduziu toda a interrogação.

“O que você fez com o anão que morava aqui?”, o meio-elfo perguntou na esperança de que no dia que viera ali não fora enganado tão facilmente. “Eu o matei e tomei sua forma para não levantar suspeitas.”

“Você está envolvido com um culto que sequestrou um draconato da Armada da Noite?”, sua mão pressionou seu crânio para que falasse rápido. “Sim.”

“O que vocês desejam com Vorsisax?”, Erebos o encarou profundamente para que respondesse, apesar de sua existência estar sendo controlada pelo arcanista. “Ele foi capturado por nós para ser devorado e ter seu poder consumido por meio de um ritual.”

“A quem vocês servem?”, disse Andurion. “Servimos a Entidade da Criação, a Progenitora.”, Azzakh, Conor, Coralina e Erebos graças a cultura de seus povos conhecem muito bem sobre as Entidades. Eles são seres divinos de extremo poder, maiores que os próprios deuses. Existem sete Entidades ao todo, cada um representando um conceito da realidade. A Progenitora representa a vida, a criação do Mundo de Vordel e das demais Entidades, conceitos muito bons para cultistas atrás de conhecimentos ocultos, o que levantou mais perguntas do que respostas.

“O que você sabe sobre a realização do ritual?”, perguntou Conor. “Ele irá ocorrer em um local de poder, ainda não definido, e precisamos de mais sacrifícios para que ele aconteça.”

Com as perguntas esgotadas, Norvar esmagou o interior do seu crânio, o invadindo de forma mística e fazendo vazar pelos orifícios da face, o descartando com desprezo. “Vamos terminar de investigar a casa.” Andurion foi o primeiro a ir no quarto do anão, sob o aviso de Conor sobre o baú misterioso com uma aura estranha, dizendo que “Pode se tratar de algum tipo de monstro.”

Na cabeceira da cama do antigo morador ele encontrou o que parecia ser um diário. Ele encontra diversos registros sobre a vida do lenhador, inclusive confirmando a informação de que a floresta vem se tornando mais sombria e que ele ouviu rumores sobre monstros e mortos-vivos. Exatamente um mês antes do dia atual, Beloril fala sobre a chegada de membros da Armada da Noite e sobre o draconato Vorsisax. Nos dez dias seguintes, ele registra o cotídiano de sua vida após o encontro com o grupo, nada de anormal. O último registro é de dezenove dias atrás.

Ele fecha o diário e guarda consigo, e encara o baú presente no quarto. Se aproximando com cautela, ele segura alto seu martelo de guerra, buscando realizar um golpe preciso sob ele, suficiente para quebrar sua estrutura, mas não o que guarda. Porém, quando estava a centímetros de desferir o golpe, ele notou o baú se abrindo sozinho e revelando presas horrendas.

Nenhum avanço ameaçador é feito, com os dois seres aguardando a reação do outro quanto ao que ia acontecer. Até que o baú começa a ranger de forma estranha e assustadora, produzindo sons até que fizessem sentido para formar uma frase. “NóS erAmOS aMiGOs dO aNÃO…”, expantado Andurion afastou o martelo. Em meio a sons incompreensíveis, ele explicou que era aliado do anão que morava ali, e foi obrigado a guardar os restos mortais do lenhador quando o cultista o assassinou, depositando-os no chão a sua frente.

Tudo que ele quer é preservar sua existência, e não desejava o mesmo destino daquele que mataram brutamente na cabana. O anão deu as costas o deixando para trás, escutando por fim o som de vidro se quebrando e vendo a monstruosidade fugir quando virou os olhos. Isso chamou a atenção de todos, levando ele a explicar o que descobriu no quarto da casa.

Eles não encontraram mais nada que era interessante para descobrir o paradeiro do bruxo. Conor então deu a ideia de colocar fogo para impedir com que os cultistas voltassem para ali e utilizassem ela para enganar outros. Esperando que utilizasse artíficios mágicos para executar o trabalho, o grupo de aventureiros observou conforme ele pegou uma parte da lenha da lareira acesa e começou a incendiar todo tipo de tecido presente na cabana, fazendo com que ela pegasse fogo.

Andurion abriu um buraco com seu martelo e depositou os restos do anão que morava ali, dando um fim honrado a ele, para que descansse na eternidade duelando nos salões de Torden.


Próximo do fim do dia, juntos do lobo Sin, perseguiram a trilha buscando mais informações sobre o que estava acontecendo ali na região. Por todo o caminho enxergaram árvores e o terreno levemente danificado pelo que parecia ser uma cena de perseguição, de um predador caçando sua presa. No fim da trilha, encontraram uma carcaça.

O lobo se aproximou e inalou o cheiro podre do cadáver, afastando com aversão e o olhar de um semelhante. Irreconhecível e devorada ela estava, como se tivesse sido morto ali mesmo e consumido com voracidade de uma fome incessante. Retornaram a carroça após a averiguação da trilha, deixando para trás esse local que antes era a morada de um simples anão lenhador, mas que fora profanada pelas ações desse culto misterioso.

  1. Os vaer são elfos descendentes de uma linhagem que vivia em Faéria e eram agraciados pelas bençãos das divindades do Sol Azul e da Lua Negra, Arivae e Lharast. A personagem descrita possui pele cinza escuro e cabelos prateados, característica daqueles que são da linhagem da Lua Negra, enquanto os que são da linhagem do Sol Azul possuiem cabelo e íris em tons de azul diversos e tons de pele semelhante a dos humanos. ↩︎
  2. Erebos Anthoniou Argyros Fasharash, personagem jogado por Bernardo Rodrigues de Oliveira. ↩︎
  3. Azzakh, Palmas Douradas, personagem jogado por Gabriel Lepsch Monteiro. ↩︎
  4. Aladim Mubarak Axefárida, personagem jogado por Victor Henrique. ↩︎
  5. Coralina, personagem jogada por Ana Beatriz Rocha. ↩︎
  6. Conor Blackwood, personagem jogado por Bernard Muniz Rebello. ↩︎
  7. Andurion Escudo-do-Trovão, personagem jogado por Jaime Zaniboni. ↩︎
  8. Lumi Raposa-da-Montanha, personagem jogada por Karina de Barros Zaniboni. ↩︎
  9. O Eirhamar (O Martelo de Bronze, na linguagem comum) é a autoridade máxima em uma cidade anã. ↩︎

Mural de destaques