O prazer que eu encontro em criar um mundo de RPG

O prazer que eu encontro em criar um mundo de RPG

A um tempo atrás eu estava escutando o NerdCast 902 – Criando mundos de RPG — que recomendo fortemente você a escutar — e tive a ideia de falar sobre o prazer que eu tenho em criar e escrever sobre meu cenário de RPG que jogo com meus amigos, O Mundo de Vordel. Já faz uns bons meses que essa ideia está na gaveta e decidi trazer ela finalmente a luz, aproveitando que na última publicação eu comecei a apresentar mais profundamente esse mundo e nossa campanha para vocês — se você ainda não conferiu, recomendo fortemente que leia ela após ler esta (você pode conferir ela clicando aqui).

Não quero entrar em detalhes sobre coisas de mestre de RPG e nem que isso seja um tipo de guia para você criar seu mundo, mas focar principalmente na parte de criação e desenvolvimento adotando um tom bastante pessoal de como eu me conecto com isso. Vamos lá!

Tudo começou lá em 2017/2018, quando eu e meus amigos começamos a jogar RPG de forma “mais séria”. A gente passou muito tempo inventando e criando sistemas tirados do completo nada, baseados apenas na nossa imaginação e no que achávamos que era certo se fazer ou no que gostávamos. Lembro de ficar horas no Discord escrevendo e criando essas coisas, para no final raramente usarmos rs. Acho que essa foi a primeira faísca para algo que iria compor grande parte da minha personalidade dali para frente.

Na época eu acompanhava bastante a série Jogando RPG do Game Chinchila, sendo uma das primeiras vezes que eu me atentei tanto a parte de desenvolvimento de um mundo de RPG e não só ao jogo em si e a narrativa. Lembro até hoje de ver uma live do Vinzaum mostrando o site do Inkarnate e ver vídeos sobre criação de mapas, algo que pensava ser muito longe das minhas capacidades. Eu abri o site, criei minha conta e comecei a rascunhar ideias de algo.

O primeira mapa que criei foi um completo desastre — mas até que tinha uns conceitos interessantes. O mundo era quase um mapa de jogo de battle royale ou jogos vorazes, feito em forma circular e com um tipo de nexus no centro, que devia ser algo com um cristal poderoso. Como não queria me preocupar muito com a parte geográfica, eu inventei que os terrenos do mapa (como deserto, áreas geladas e etc.) eram gerados por cristais remanescentes desse que ficava no centro, e determinava esses aspectos do mundo. Bom, resumidamente eu fui melhorando ele dentro de alguns dias e depois descartei como se fosse nada.

Porém, isso não foi o fim. Como disse anteriormente, eu e meus amigos passamos algum tempo desenvolvendo sistemas da nossa cabeça, até que a gente decidiu jogar de forma “séria” e escolhemos um sistema de RPG para aprender e jogar. A primeira e única opção que veio nas nossas cabeças foi jogar usando os livros do Dungeons and Dragons 5E, pois tudo que gostávamos em relação a RPG estava nele. Acredito que a minha parcela de “culpa” nessa escolha vinha de eu estar viciado no Jogando RPG e por ter pesquisado bastante sobre o sistema.

Na época dos sistemas improvisados, eu havia mestrado para eles apenas uma vez, revezando com um outro amigo que se não me engano mestrou umas duas ou três vezes. Não sei dizer o porquê, mas foi decidido que eu seria o mestre para essa empreitada nossa de aprender. No começo do Mundo de Vordel #14 – Ritual Profano, parte 1: À Procura de Rastros de Cultistas eu falei um pouco sobre isso, tudo começando com o desenvolvimento de um mapa para guiar a localização de nossas histórias, criando a ponta de um continente e um reino de anões.

Depois disso, era difícil que eu fosse retirado da cadeira de mestre.

Com o tempo as coisas foram crescendo mais e mais. Eu tomei gosto por criar e desenvolver o mapa, colocando elementos de jogos e histórias que eu gostava — alguns até mesmo completamente copiados — e começando a escrever ideias sobre o povo de cada reino, como era esse mundo, como era a vida das pessoas. No começo tudo era bastante arcaico, nada muito profundo mas que já exibia características do que veio a se tornar O Mundo de Vordel.

Hoje em dia isso se tornou uma parte fixa da minha rotina. Não tem um dia que eu não pense sobre meu cenário de RPG, sobre os povos e monstros que vivem nele ou qual o papel dos deuses nisso tudo. Lá para 2022, quando começamos a jogar a campanha atual, eu já estava na terceira ou quarta versão das minhas anotações sobre, com um mundo bem mais complexo e melhor estruturado, e também com um mapa muito melhor. Algum dia eu faço uma postagem com mais detalhes sobre a linha do tempo do desenvolvimento de Vordel.

Algo que se tornou crucial para o desenvolvimento do cenário nessa época foi trabalhar ainda mais junto dos meus jogadores. Com o começo da nova campanha eu decidi me aproximar bastante da criação da história pré-campanha de cada personagem, perguntando pontos específicos sobre a história de cada um e escrevendo para eles textos inserindo-os no mundo e preservando suas ideias. Assim eu explorei muitas coisas que só estavam na minha cabeça e que nunca antes tinha dado tanta atenção quanto agora.

Além disso, eu também comecei a querer explorar ideias que eu tinha nas lacunas dentro da história dos personagens, como um vilão que queria muito escrever sobre ou algum arco de história que achava que conectava com o que os jogadores desejavam. Também aproveitei para resgatar ideias antigas e tratá-las com muito mais esmero e qualidade, que com esses 4 anos — atualmente 6 anos — eu tinha me tornado um criador de mundo e mestre muito melhor.

Uma questão que cada vez mais reparo em mim é que eu levo mestrar RPG como um trabalho de meio período. Quem me conhece já sabe disso muito bem, mas o que eu quero dizer com isso? Além do fato de isso compor uma parte considerável da minha rotina e da minha personalidade, eu trato o desenvolvimento do cenário e da nossa campanha como se fosse um projeto para uma grande empresa. Eu utilizo diversos aplicativos e sistemas para organizar minhas ideias, anotações e textos, além de passar horas e horas escrevendo sobre essas coisas sem me importar com quanto tempo leve.

No meu processo de criação e desenvolvimento eu utilizo muito o Notion, que guarda páginas e páginas das anotações do meu mundo, com sequências de textos explicando a criação do mundo, eventos importantes da história, os continentes, os reinos e muito mais. Além disso, possuo um painel/escudo do mestre virtual da minha campanha com páginas dedicadas a cada um dos personagens, aventuras, planejamento de sessões, anotações pós-sessão e etc. Toda pessoa que mostra meu paines relacionados a campanha ou ao cenário fica impressionado com a complexidade, organização e dedicação ao RPG.

Vale citar aqui também o Inkarnate, que desde 2018 utilizo para criação do mapa continental de Drazenia que utilizo na campanha. Algum dia posso fazer um post mais extenso falando sobre todas as tecnologias e aplicativos que utilizo, pois não é o propósito desta publicação.

Escudo do Mestre Digital da campanha do Mundo de Vordel

Uma outra questão que me atrai muito nesse universo de criação de cenários para mesas de RPG é a criação de conteúdo homebrew. Olhando para o blog e minha página é fácil perceber isso, já que costumo disponibilizar algumas das minhas criações, mas isso não é nem a ponta do iceberg das coisas que eu crio em relação a regras e suplementos que utilizamos em mesa.

Toda aventura eu costumo criar duas ou mais fichas totalmente novas de inimigos para utilizar dentro de mesa, além disso costumo criar regras que aproximam mais o sistema que estou utilizando na campanha das ideias e regras do cenário. Eu já fazia isso na época que jogávamos a quinta edição de D&D, e agora quando mudamos a mesa para o Tormenta 20 não deixei isso para trás. Eu fiz um arquivo todo trabalhado adaptando e trazendo novas regras ao sistema — como disse antes, para aproximar mais as regras do sistema aos conceitos do cenário. Esse arquivo inclui regras e textos sobre raças, classes, distinções, regras modificadas e muita coisa que fiz em um período de dois meses para transicionar a mesa para outro sistema.

O modo que eu trabalho com essas coisas me deixa com muito orgulho, mas isso está longe de ser a melhor forma de se escrever ou desenvolver algo, isso é apenas como eu faço. Sempre que falo sobre mestrar com outras pessoas eu costumo dizer que todo mestre deve ter sua assinatura, algo que seja só dele e os próprios métodos para a criação de suas aventuras, campanhas e de seu mundo. Essa forma super organizada e que me faz passar horas escrevendo é como gosto de fazer, e gosto de pensar que essa é minha assinatura, a dedicação que tenho em criar essas coisas e preencher esse mundo de características que fazem com que meus jogadores se sintam bastante imersos na aventura.

São poucas as coisas que considero melhor do que sentar no computador, colocar uma playlist com músicas que gosto — que normalmente envolve muita gritaria —, escolher alguns livros de cenários e aventuras de RPG e começar a escrever por horas. Eu me sinto tecendo os fios que compõem uma realidade preenchida por aspectos das coisas que eu gosto e me inspiram. Acaba que é uma forma que encontrei de trazer a vida ideias antigas e criar coisas novas, e apresentar elas de uma forma única. É um prazer indescritível que sinto ao fazer isso, e não vejo eu parando com esses hábitos tão cedo.

Mural de destaques