A responsabilidade de ser o mestre do grupo

A responsabilidade de ser o mestre do grupo

Um das minhas principais vontades e objetivos quando criei a Cripta era de externalizar pensamentos e escrever mais sobre minha experiência como mestre de RPG. As vezes consigo fazer isso, as vezes não. Porém, ele continua sendo a porta de entrada para meus pensamentos, reflexões e também para compartilhar conteúdos que vocês podem utilizar em sua mesas.

A publicação de hoje vem ao mesmo tempo de um lugar de orgulho, frustração e vontade de querer mais, de querer ser mais. A maioria dos mestres já se encontraram neste lugar, de assumir a responsabilidade de mestrar a maioria das mesas do seu grupo de amigos e ver poucas — ou quase nenhuma — mesa como jogador de fato.

Hoje quero conversar com vocês sobre isso e talvez ajudar alguns mestres ai fora que possam se encontrar em uma situação semelhante.

Existe esse termo em inglês que traduz perfeitamente essa situação, que é o forever DM, que poderia ser traduzido para algo como “para sempre um mestre” ou “mestre eterno”. E ele é utilizado amplamente para indicar jogadores de RPG que sempre são os mestres de sua mesas, seja por acaso ou egoísmo.

Enquanto pensava no que iria publicar, me veio essa ideia de falar sobre esse assunto. Comecei a questionar o porquê disso acontecer, como muitos jogadores caem nesse caminho sem volta. E acredito que a resposta seja simples e óbvia: a verdade é que mestrar RPG é visto como algo complicado.

Existe esse estigma que ataca novos e velhos jogadores que se distanciam da possibilidade de mestrar por ver essa “tarefa” como algo complicado e quase místico. Isso é uma herança cruel do início desse hobby, que acabava por jogar toda a responsabilidade de uma partida de RPG em cima desse papel atribuído a um único jogador. Porém, não acredito que isso seja mais tão comum assim.

Atualmente RPG é visto como algo muito mais colaborativo do que nos anos 70 e 80, quando o jogo tinha uma atribuição muito mais de exploração de masmorras e enfrentar desafios em busca de tesouro. Hoje sistemas e jogos de RPG constroem histórias complexas que cativam mestres e jogadores, onde cada um colabora com algo para a criação de uma marcante narrativa.

Mesmo com a ideia de narração colaborativa e até sistemas que não precisam de mestres, ainda temos muitos jogadores que ficam presos no papel de mestre. E não me entenda mal, mestrar é a parte que mais gosto em jogar RPG de mesa e acredito que sempre em um grupo de amigos terá aquele que estará mais disposto para isso. Porém, o que impede outros jogadores de assumir esse papel de tempos em tempos?

Eu não venho para responder essas perguntas e nem propor como os RPG’s deveriam tratar esse tema — até porquê acho que muitos deles já tratam esse tema muito bem. Meu objetivo é a reflexão. Então pense sobre deixar a cadeira de mestre com mais constância, incentivar um jogador em assumir ela ou até procurar outros grupos e viver a experiência de ser um personagem de vez em quando.

Não digo que isso é algo simples de se fazer, mas testar algo diferente muitas vezes é mais sobre buscar a oportunidade e agarrar ela do que por ser realmente algo difícil e inalcançável.

Eu adoro mestrar RPG, adoro a ideia de criar um mundo vivo para meus amigos se aventurarem, criar desafios e ajudar eles a desenvolverem uma história que marque as nossas vidas de alguma forma. Me frustra — e acredito que frustra também outros mestres — o fato de não conseguir assumir tanto o papel de jogador, mas nada para mim é comparável ao sentimento de sentar em uma mesa com meus amigos e dar início a sessão da nossa campanha.

E o que vem me deixado mais triste é justamente por não conseguir fazer isso com a frequência que eu queria. Compromissos vão surgindo, o trabalho toma conta de várias horas da sua semana e fica mais difícil encontrar um horário em comum e também tempo para planejar com a força e vigor que desejava.

Faz anos que eu não consigo parar e escrever fervorosamente sobre a campanha com meus amigos e sobre o meu cenário. Fico relembrando memórias de tempos passados com nostalgia e talvez um pouco de falsidade, como se antes eu conseguisse escrever muito mais e com muito mais vontade do que consigo agora.

Mas talvez essa “era de ouro” seja uma invenção da nossa cabeça que nos coloca para baixo e o futuro reserva coisas melhores, mais tempo para sonhar e jogar. Não é como se eu não estivesse escrevendo, pensando sobre ou desejando isso, mas a vida adulta te faz postergar muito dos seus desejos de aproveitar mais em troca de ser mais produtivo ou melhor.

Essa falta vai criando um abismo dentro do meu coração que é impossível de ser preenchido se não com a escrita e visitar esse mundo que amo tanto e com amigos queridos ao meu lado. E o que posso falar para vocês é que esse é um sentimento comum, não só com mestres apaixonados pelo que fazem, mas também com escritores, artistas no geral ou pessoas que simplesmente queriam ter mais tempo para fazer o que elas amam, e não ser só uma engrenagem focada em produzir.

O que me trás conforto é pensar que talvez um dia isso tudo passe e eu pare de sentir tanto esse peso que coloco em mim mesmo. E enquanto isso eu vou encontrando também outras formas de aproveitar isso, conversando com amigos, falando sobre como sou apaixonado em RPG e compartilhando minha experiência com outros mestres no FlameReaper e na Cripta.

Quando você se coloca no lugar de ser o mestre do grupo você pode se apaixonar perdidamente no que faz, mas também tem grande chance de você deixar pesar demais uma responsabilidade exagerada em cima de você.

O mestre não é a cola que une o grupo, ele não é o mais inteligente na mesa ou um mago que sabe as artes secretas sobre mestrar RPG.

O mestre é acima de tudo um jogador e uma pessoa como qualquer um na mesa.

As responsabilidades de um mestre são como a de qualquer outro jogador, sentar em uma mesa com amigos e fazer parte de uma história junto deles. Ser aquele que organiza os desafios e pavimenta o caminho não te da o direito de ser melhor que os outros e nem de carregar um peso enorme sozinho.

O mais legal em um RPG de mesa não é criar um mundo ou um personagem, é poder compartilhar isso com pessoas que você gosta.

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