Esse ano decidi que iria me dedicar bastante ao hábito da leitura, que retomei com força no ano passado. O começo de 2025 foi bastante turbulento, principalmente em fevereiro e no início de março, mas mesmo atrasado na minha meta diária de leitura, consegui nesse tempo finalizar 4 livros. Uma dessas leituras foi de Contos de Dying Earth.
Esse livro tem uma relação muito importante com a criação dos RPG’s de mesa, o que foi minha principal motivação para ler essa obra. Na publicação de hoje vou falar sobre essa relação e dar motivos do porquê você deveria ou não ler esse livro.
Fantástico e estranho em uma edição que poderia ser melhor
Em Contos de Dying Earth, Jack Vance explora um futuro distante onde o Sol está a beira da extinção, misturando elementos de fantasia e ficção científica de uma forma única. Apesar de uma premissa apocalíptica, os habitantes da Terra não estão preocupados com sua morte, a história explora uma complexidade temática focada em disputa, busca de conhecimento e a estranheza da magia, que são apresentadas aos poucos conforme a leitura dos contos.
Quando li achei o começo meio morno, nada surpreendente, mas o brilhantismo dessa leitura está nas descobertas feitas a cada história e em se posicionar historicamente na época de sua publicação original. Tudo apresentado era muito novo para época, tornando ainda mais interessante passar por suas páginas e imaginar quantas outras obras foram inspiradas por ele.
O elemento mais importante de Dying Earth é sua magia e seus magos, que traz a motivação dos conflitos existente entre os personagens e conta a história do seu mundo. Nele, a magia se faz através da descoberta dos escritos de magos dos tempos antigos, já que foi perdido os meios para a criação de novas feitiçarias. Além disso, os magos são limitados por sua memória, pois para conjurar as magias descobertas eles precisam gravar suas fórmulas místicas toda vez que desejam utilizá-las.
O mundo é estranho e hostil, com o mistério sendo um personagem fixo em todas as histórias e o que faz a leitura satisfatória a cada conto. Seus contos se conectam na medida certa através de seus personagens, que uma hora são coadjuvantes e depois protagonizam suas próprias narrativas, fazendo com que o leitor crie em sua cabeça uma linha do tempo dos eventos desse mundo e conecte as descobertas em torno de sua mítica. As últimas duas histórias são sensacionais, apresentando tudo que existe de bom nas histórias anteriores.
Como disse anteriormente, o começo é um pouco lento e não apresenta coisas muito interessantes, mas a partir do terceiro conto o autor engata e apresenta ao leitor histórias sensacionais. Minha única decepção foi a edição que eu li, publicada pela editora New Order. O prefácio apresenta tudo aquilo que deveria, mas de uma forma que não é interessante e coloca o leitor a beira de ignorar o texto e partir direto para as histórias, e senti que a tradução poderia ter sido melhor, com algumas escolhas duvidosas e que atrapalham a leitura em algum momento. Porém, minha principal insatisfação foi em dois momentos da minha leitura, onde um diálogo era apresentado erroneamente como um parágrafo de narração, confundindo a história em minha cabeça.
Apesar disso, recomendo a leitura para aqueles que são apaixonados por fantasia e/ou ficção científica, e quem tem curiosidade sobre sua importância histórica para a literatura. Essa saga não termina nesse livro, espero que a editora siga trazendo as histórias de Jack Vance e que trate com mais carinho os seus textos.
A Importância de Contos de Dying Earth para o RPG de Mesa
Se você já jogou qualquer RPG de fantasia medieval, principalmente Dungeons and Dragons, deve ter percebido a principal inspiração dessa obra para esses jogos: o seu sistema de magia! Dentro e fora do universo de Dying Earth, o que foi chamado posteriormente de “Magia Vanciana” — nomeada em homenagem ao autor da obra — se destacou como uma quebra ao estilo clássico da magia de contos de fada, onde o mago ou feiticeiro era um mestre completo de suas capacidades, manipulando a natureza através da magia como bem entendia.
Inspirado por ela, Gary Gygax moldou como a magia iria se comportar no universo de D&D, deixando claro aos jogadores a inspiração na obra de Jack Vance. Isso foi replicado em diversos outros sistemas de fantasia medieval junto de outros elementos derivados dessa obra, se perpetuando até os dias de hoje. Acredito que toda pessoa que quer estudar um pouco sobre a história do RPG ou esteja curioso sobre as inspirações que moldaram o primeiro de seus jogos do tipo, deve colocar Contos de Dying Earth acima de todas as outras obras relacionadas.



Deixe um comentário