Quem já acompanha a página a um tempo sabe que minha parte favorita de mestrar RPG — além de criar um cenário e eventos — é desenvolver monstros e inimigos para minhas mesas. Grande parte dessa experiência é compartilhada com vocês através do Bestiário do Ceifador, mas queria fazer uma publicação do Oráculo focado no meu processo criativo, detalhando cada uma das partes.
Primeiro vou abordar a parte mais “narrativa” de como criar um antagonista, para na segunda etapa explicar o processo de desenvolvimento de sua ficha baseado no que foi criado na primeira etapa. Se você quiser complementar seu aprendizado, recomendo dar uma olhada nas fichas do Bestiário para se aprofundar no assunto, principalmente as partes onde detalho meu processo criativo de cada ficha.
Como desenvolver um antagonista
Toda história precisa de um desafio, algo que entre em conflito com os protagonistas e impeça a conclusão imediata dos seus objetivos. Isso pode se manifestar em uma história de diversas formas, mas a mais comum delas é através de um antagonista.
Entendendo seu propósito
Como disse na introdução desta seção, toda história precisa de desafio. Uma história sem desafio se torna um mero conjunto de palavras, uma linha reta sem emoção e qualquer consequência. O propósito de um antagonista parte dessa ideia, podendo evoluir para algo além e mais complexo. E dentro de uma campanha de RPG as opções são ainda mais interessantes.
O antagonista é um personagem que pode fazer os jogadores questionarem os próprios objetivos, dificultar a jornada deles, estar em posse do que eles precisam ou simplesmente tornar suas vidas um caos completo. Ele pode ser o maior desafio que será enfrentado pelo grupo dentro da campanha, o inimigo que eles vão se encontrar durante aquela semana ou a chave de ouro que irá concluir o arco de uma aventura.
Tudo isso pode ser resumido em uma ideia que está explicada na própria palavra: ele é o ponto de oposição aos personagens da história. Complementando essa ideia, é preciso deixar claro que o antagonista de uma história não é necessariamente o vilão.
Criando o seu antagonista
Existe uma infinidade de maneiras para criar um antagonista, mas é possível definir algumas ideias que te ajudam a caminhar em direção ao que você deseja. Antes disso, gosto de começar sua criação através de um brainstorm onde vou pontuando ideias gerais sobre o antagonista — como faço no começo de qualquer etapa de desenvolvimento sobre algo dentro das minhas campanhas.
Busque inspirações e escreva ideias soltas, conectando-as conforme achar necessário. Esse vai ser seu porto seguro para qual sempre irá retornar quando for escrever algo sobre seu antagonista, uma ideia fixa sobre ele na sua mente ou uma anotação simples em um bloco de notas.
A complexidade dessa etapa depende de qual o propósito da criação desse antagonista. Se ele for apenas a ficha de um monstro no qual eles vão enfrentar em uma masmorra, essa etapa pode ser mais rápida do que desenvolver o vilão de sua campanha.
A partir disso, você pode separar essas ideias em três definições centrais para todo antagonista: Conceito, Motivação e Objetivos.
Pense no conceito como a apresentação do seu antagonista, como você iria explicar para outra pessoa quem ele é. Sua aparência, jeito de agir, ideologias e outros “tijolos” que constroem e dão forma as ideias estabelecidas sobre ele.
Busque dentro disso qual é sua motivação, o motor principal que move ele para frente. Grande parte do que torna um antagonista interessante são suas motivações, que podem levar outras pessoas a entenderem como ele chegou até ali e porquê faz o que faz.
Por fim, assim como todo personagem, um antagonista possui objetivos próprios e que normalmente são opostos aos objetivos dos personagens da campanha. Dessa forma, pense nos objetivos de forma a gerar conflito na sua história e a dificultar ou complicar os desejos dos personagens jogadores. Além disso, você pode considerar a conclusão de alguns deles como o ponto de partida de uma aventura ou campanha inteira, ou ainda uma forma de conectar
A partir do desenvolvimento dessas definições, você já fez grande parte do trabalho necessário para criar um antagonista. Agora basta posicionar ele em sua campanha da melhor forma que desejar.
Antagonistas emergentes
Durante uma campanha, as ações dos personagens podem levar a inúmeras consequências — boas ou ruins — que modificam o seu decorrer, e o mesmo pode acontecer com antagonistas. Reflita sobre as ações dos personagens e pense como poderia se aproveitar delas para a criação de um novo inimigo, ou mesmo durante a sessão se aproveite de situações nascidas do caos para colocar um NPC em oposição aos jogadores.
Adaptando seu antagonista para as regras do seu RPG
Obviamente quando o assunto é RPG de mesa, você precisa criar um registro de regra que coloque o seu antagonista apropriadamente em jogo. Isso pode ser feito através de uma ficha de ameaça ou simplesmente anotações de mecânicas relacionadas a ele.
A dica que posso dar a você e que é a melhor forma de você adaptar ele a regra do sistema que utiliza é: leia o manual de regras! Sei que pode parecer um pouco óbvio, mas acredite, tem muitos mestres que tem preguiça ou se iludem de que existe uma maneira mágica de criar esse tipo de documento. Leia o manual, entenda através dele as regras para criação de uma “ficha” ou busque exemplos dentro do próprio sistema que você possa adaptar para utilizar com o seu antagonista.
Se você sentir dificuldade justamente nessa etapa, não sinta vergonha de pegar exemplos no sistema, é a melhor maneira de aprender. Quando comecei a jogar RPG usando a quinta edição de Dungeons and Dragons, eu já criava meus próprios inimigos homebrew e comecei comparando as fichas de inimigos entre si e modificando pequenas características que aproximassem a ficha do que queria.
Posteriormente, fui entendendo melhor as regras e as ferramentas que o sistema me dava para desenvolver minhas próprias fichas de forma equilibrada com o sistema. Mas não se sinta pressionado a criar a ficha mais equilibrada ou estar o mais correto em relação as regras, apenas foque em desenvolver conceitualmente seu antagonista e aplicar ele da forma que pensou.
Caso não se sinta satisfeito com o resultado, sempre existe a oportunidade de tentar novamente com um novo personagem, uma nova ideia, um novo conceito. Mas utilizando todo o aprendizado construído até aqui.
Em publicações futuras posso vir aqui e ensinar vocês a criar fichas direcionadas a diferentes sistemas — como fiz no post anterior que foi mais focado no Tormenta20. De qualquer forma, mais uma vez recomendo ver o material disponível no Bestiário do Ceifador se quiser entender mais sobre meu processo e ver fichas desenvolvidas a partir da adaptação de conceitos criados para cada um dos monstros e inimigos que desenvolvi.


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