Um dos ensinamentos mais valiosos que tive nesses anos mestrando RPG é que pessoas são seres complexos. Cada um tem uma vida, ideias completamente diferentes, desejos e necessidades que muitas vezes são imprevisíveis. E se a vida é assim, porquê seria diferente no RPG?
RPG muitas vezes é um grande compromisso, afinal você tá marcando de se reunir periodicamente com seus amigos para ficar imaginando um mundo de fantasia por horas seguidas, rolando dados, somando números. Com muitos se dedicando a construir algo único para eles, e por isso você como mestre deve dar o devido valor a isso.
Uma sessão zero não é nada perto de um exagero, fazer um contrato com os jogadores ou consequência de uma cultura vitimista. É uma conversa franca, é ser humano. É entender o que cada um deseja com o jogo, como vai ser uma campanha, tirar dúvidas, falar sobre limites, conversar sobre expectativas e interesses. Pela complexidade do RPG e por ser algo totalmente diferente de qualquer jogo existente, você deve reservar um momento para escutar seus jogadores e deixar de pensar que você é um Deus intocável que planeja todo o curso da história do seu mundo no fundo de uma caverna.
A sessão zero pode ser a diferença vital entre uma campanha que acaba repentinamente e algo duradouro, a construção de uma memória única criada por um grupo de amigos. Digo ainda mais, ela é uma ferramenta essencial do ato de jogar RPG.
Na publicação de hoje vamos falar sobre o que é a sessão zero, porquê você deveria marcar uma com seus jogadores e o passo a passo para “mestrar” essa sessão. Então desça imediatamente dessa torre e vem comigo entender mais sobre isso.
Entendendo mais sobre a sessão zero
Antes de começar a explicar o passo a passo sobre como “mestrar” uma sessão zero, é preciso entender do que se trata ela e porquê você deveria marcar uma sessão assim com seus jogadores.
O que é uma “sessão zero”?
Como disse na introdução desta publicação, a sessão zero trata-se nada mais nada menos do que uma conversa organizada. Quase como uma reunião entre mestre e jogadores, onde eles conversam sobre a campanha, falam sobre expectativas, interesses e limites, e constroem juntos algumas coisas importantes que vão afetar diretamente o que acontece na campanha.
O ponto principal da sessão zero é escutar! Preste atenção no que os seus jogadores falam e no que é importante para eles. Assim, você evita que lá na frente algo aconteça com algum dos personagens e que acabe por insatisfazer o grupo. Fazendo assim da sessão zero não só uma reunião, mas também um contrato do que os jogadores podem esperar sobre a campanha.
Cenário e tom da campanha
Outro ponto importante é o cenário e o tom da campanha. Um influência o outro, seja porquê você e seus jogadores desejam jogar em um cenário específico e isso traz o tom da campanha, ou vice-versa. Essa escolha, assim como o estilo de campanha, influencia em todas as outras. Essa definindo mais a experiência que vai ser vivenciada por todos, enquanto o estilo diz mais sobre o como.
É importante que todos os jogadores estejam de acordo com o cenário que irão jogar e qual vai ser o tom da campanha (esse último entra definição de gênero como fantasia sombria, medieval, futurismo e etc.). A partir dessa escolha, você poderá trazer temáticas relacionadas, inspirações suas e decidir qual sistema utilizar, já que as regras de um mundo medieval necessitam estar refletidas nas regras do sistema de jogo que escolherem.
Porquê você deveria fazer uma
A partir da realização de uma sessão zero, além de você entender o que seus jogadores pensam sobre a campanha, você também previne muita dor de cabeça que pode vir mais a frente. Quando todos sabem um pouco do esperar, sobra espaço para a surpresa e não para a decepção. Além disso, é uma ótima ferramenta para guiar o mestre no que planejar para sua campanha.
Por isso sempre recomendo a mestres iniciantes e veteranos a fazer uma sessão zero, não tem nenhuma desvantagem nisso. Toda campanha antes de começar é seguido por diversas conversas entre todos os jogadores sobre as ideias da campanha, sistema e etc., e a sessão zero vai organizar essa conversa e facilitar com que todos compreendam como será a mesa.
Como o nome diz, a sessão zero e todo seu conceito pressupõe um ato que acontece previamente ao começo da campanha, mas isso não é uma regra! Se você já tem uma campanha e ainda não fez uma sessão zero — ou a última que fez faz anos —, não deixe de tentar reunir seus jogadores para esse tipo de conversa. Seu efeito positivo é independente do momento que é realizado, e pode alinhar questões que você e eles se perguntavam e ainda não tinham uma resposta.
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Passo a passo para “mestrar” uma sessão zero
Bom, já falamos sobre o que é a sessão zero e as vantagens que pode trazer para sua mesa de RPG. Agora é preciso entender o passo a passo por trás disso, com recomendações de tópicos para abordar nesta sessão.
Comece explicando sobre a mesa e a campanha
O primeiro passo é explicar para os jogadores o que é a mesa e a campanha, de onde surgiu a ideia, se foi uma vontade de um jogador específico e etc. Dessa forma, você vai deixar todos por dentro do conceito da campanha e quais tipos de aventura irão viver nela.
Apresente da forma que melhor entender, seja com uma sinopse, uma narração imersiva ou uma conversa focada em tópicos específicos. O importante é que todos estejam por dentro do que é a mesa antes de começar a definir coisas sobre ela — como personagens, antepassados, acontecimentos.
Converse sobre expectativas e interesses dos seus jogadores
A partir da apresentação do conceito por trás da campanha, você pode abordar sobre as expectativas e interesses dos jogadores. Entenda a motivação por trás de cada um para ter se interessado em participar na mesa. Tente fazer perguntas que despertem a curiosidade nos jogadores, para que eles afirmem pontos importantes que deixarão eles mais engajados na mesa.
Nesse momento, gosto também de perguntar a cada um obras que possam me inspirar durante o planejamento e as sessões da campanha. É praticamente impossível que nenhum deles irá falar nada, e muitos vão recomendar e descrever obras que tenham alguma importância para aquele jogador. Assim, utilizar elas entre suas inspirações pode levar esse jogador a identificar esses pontos e aumentar sua noção de pertencimento e orgulho frente ao que constroem juntos na mesa.
Defina limites que você e os outros jogadores não podem ultrapassar
Todo jogador possui limites, mesmo aquele jogador que acha que é implacável e todos os tipos de assuntos são válidos para ele. Toda pessoa possui algo que traz desconforto, e em uma mesa de RPG isso pode se manifestar de diversas formas.
Talvez não seja necessariamente um tópico narrativo que o deixe desconfortável, pode ser algo como não desejar que seu personagem morra tão facilmente, ou que as ações do grupo não signifiquem nada na história da campanha. Por isso é importante conversar e entender cada um nesse sentido também, busque dar exemplos de situações em jogo e perguntar cada um o que eles acham.
Eu sou um jogador que sou bastante aberto a experiências diversas, e minhas limitações estão principalmente no âmbito do jogo, como quero ser tratado e o valor do meu personagem para a campanha. Por exemplo, eu odeio histórias inacabadas, e odiaria perder um personagem ou deixar uma campanha sem estar finalizada — isso já aconteceu e foi bastante desconfortável.
O mestre também é um jogador
Aproveitar que estamos falando sobre limites para destacar um conceito que muitos mestres esquecem, você também é um jogador da mesa. Você não está acima de ninguém, e muito menos abaixo dos outros jogadores. Para de achar que todo mestre é especial porquê conduz uma história como ninguém ou por possuir uma narração impecável, ele vale o mesmo tanto que o jogador que sempre está presente na sessão.
O “trabalho” de um mestre de RPG deve sim ser valorizado pelos jogadores, por proporcionar a eles esse momento. Assim como o mestre deve valorizar seus jogadores por sua presença e participações na mesa. O mestre deve se divertir como qualquer jogador e não pode deixar sua vontade ser maior do que a dos jogadores.
Equilíbrio deve ser buscado, você auxilia os jogadores na construção de uma história e coloca elementos do que também deseja viver com eles.
Defina junto deles as condições para que vocês marquem as sessões de jogo
Um dos pontos mais difíceis de um RPG de mesa é conseguir coordenar o horário de pessoas com vidas muitas vezes totalmente diferentes. Alinhe com cada um o local onde irá ocorrer os jogos, os melhores dias e horários para isso e outras regras básicas de convivência. Com essas informações em mãos, vai ser mais fácil definir datas que todos se encontrem.
Prese pelo compromisso de cada um, mas não obrigue que todos estejam sempre disponíveis para jogar. Como já disse, cada um tem uma vida, e se acontecer de em determinada data um ou mais não consigam participar, veja a possibilidade de remarcar ou em um meio para que o jogo aconteça normalmente. Muitos jogadores não se importam que percam uma ou outra sessão — só não vai deixar o personagem daquele que faltou morrer por acidente.
Fale sobre o sistema de regras
Jogar RPG de mesa está intrinsicamente conectado a necessidade de um sistema de regras, então provavelmente antes mesmo de acontecer a sessão zero você e os jogadores já saibam qual irão utilizar em suas mesas. Caso isso ainda não tenha sido definido, apresente possibilidades que façam sentido para o que vocês querem jogar e alinhado também com o que estão mais familiarizados.
Use esse momento também para perguntar sobre regras da mesa, regras opcionais, o que cada um gosta e desgosta no sistema. Entenda a visão de todos sobre o que vão usar de base para o jogo de vocês. É sempre legal antes de introduzir uma nova regra que afete profundamente os personagens, você converse com antecedência sobre isso.
Criação dos personagens
Particularmente, esse é um ponto um pouco ambíguo para mim se seria obrigatório na sessão zero. Não que eu não ache que o grupo não deva falar sobre os personagens nesta sessão, mas não é necessário que vocês definam tudo sobre eles neste momento.
Comece conversando com os jogadores sobre pontos gerais sobre seus personagens, como o conceito do personagem e seu nome. E, caso você deseje ou seja necessário, você pode acompanhar cada um na criação da ficha de seu personagem, seguindo um passo a passo com cada jogador. Além disso, pergunte para os jogadores questões chaves sobre a história dos seus personagens.
O que perguntar sobre a história dos personagens da campanha
Eu tenho escrito algumas perguntas chave que gosto de fazer para os meus jogadores nesse momento. Recomendo você seguir um padrão parecido e criar perguntas que façam sentido para sua campanha.
Segue abaixo quais são essas perguntas.
- Qual a sua origem? Como você imagina o local onde ele nasceu e sua família.
- Como foi a infância do personagem? Como foram os primeiros anos de vida de seu personagem até a vida adulta.
- O que o levou até aqui? Descreva como era a vida dele até se tornar um aventureiro e quais complicações encontrou pelo caminho.
- Algum outro ponto que você deseja incluir em sua história?
Nas minhas mesas eu gosto de deixar a ficha de personagem e as perguntas sobre sua história para fazer em particular com cada jogador, mas isso não é uma regra — como grande parte do conteúdo dessa publicação, isso é uma recomendação. Assim, cada um pode falar sem medo sobre seu personagem e consigo me dedicar melhor a escutar sobre o que ele pensa sobre ele.
Anteriormente falei sobre a questão de que uma sessão zero não é obrigatória de fazer no começo da campanha, e dou aqui um exemplo perfeito. Em 2025 eu me reuni com parte dos jogadores da campanha principal do Mundo de Vordel, e sentamos para conversar sobre algumas questões da campanha, falar sobre expectativas, limites e inspirações, apresentar novas regras que iriamos utilizar e também otimizar a ficha dos personagens deles.
Fazia um tempo desde a última conversa sobre a campanha, e aproveitei a premissa de apresentar um novo suplemento que iriamos utilizar e o desejo deles para otimização das fichas para conversar sobre esses pontos que queria. Então, sinta-se livre para decidir como você melhor entende essa parte de criação dos personagens, mas entenda que eles são um ponto vital da campanha e que é necessário reservar um tempo especial para isso.



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